Purpurina e mistérios bem estruturados

De perplexidade eu me distraio. Ali, calmamente postado numa maré furiosa e estrondosa de assuntos fúteis e rasos (mas como se profundos ao tentarem engolir sua voz) se colocava uma grande mente. Divertia-se. Sem cerimônia, sem implorar por atenção, dentro da tranquilidade de sua vestimenta triste e cinza, sorria feito criança. E me assombra como tudo parecia simples e calmo numa das mentes possivelmente mais afiadas e reviradas com que meus dias se depararam – ou se debateram, pedindo silêncio. E eu pedindo que o momento seja completamente percebido e gravado com um carimbo de fogo pressionado nas minhas ideias, para que elas incendiassem num selo que me validasse conhecedora de algo. Deixa eu explicar: que é daquelas mentes que criam como o revolver pulsante e inspirado de quatro estações de Vivaldi, um conhecer e edificar pensamentos, de confrontos, tocam aqui e lá ligando os pontos que para os débeis não poderiam jamais ser convertidos numa nova curva, de orquestrar o novo e o nobre. Quem quisesse ouvir aquele milimétrico sopro de saber na sonora desordem dos ignorantes, ouvisse. Eu ouvia. Vertente. Como pode alguém passar por Vivaldi sem ouvir – se não são surdos? Tem esses espíritos que eu admiro e tento decifrar. E esse se desdobrou em criações mundo afora, são pontes, são monumentos e são arranha-céus levemente brutais brotados. E assim, sem ver tudo que já se criou, vira uma esfinge misteriosa, probatória da minha capacidade de seguir suas questões. Ele é robusto e delicado – assim vou cursando a grade de estruturas metálicas. Aquela cabecinha tem uma pluma de cabelo brincalhona e cinza também, no topo. Bandeira sinalizadora, discreta. Tento aprender a ver o que alguns tolos não percebem. Algumas coisas são discretas à grande maioria das pessoas. Ele se atrasa e sai antes, hoje. Vai à uma missa de sétimo dia. Quem perceberia? Ele ter um único pontinho de purpurina amarela reluzindo para os ângulos mais cuidadosos e detalhistas, na sua bochecha direita. E escrevi este texto para descobrir na minha fantasia de onde veio este pontinho divergente de tudo, em sua bochecha. Não consegui criar nada, ele permanece um mistério intacto. Eu apenas o vejo de baguete francesa debaixo do braço. E vejo definindo quais as formas e tamanhos da skyline de uma Dubai muito distante. Ele é cálculo dizendo que é pra gente ter sentimento das coisas. Será que me basta dizer que isso é adorável?

Duo

Eu era pronta, mas de então eu sou na cama um ser desmembrado nessas interrupções de te ver.

Agora fui feita siamesa, num coração que bate de lá pra cá em indecisões, medos e adaptações em ser meu e seu ao mesmo tempo, em tempos que ele já era compasso de cantar sozinho. E de siamesa eu me contorno toda em você, surjo por qualquer encaixe que o seu jeito desenhar lugar no espaço do seu entorno pra eu me intrometer. E me intrometo, e interrompida disso sou metade. De um jeito consanguíneo, se mistura um entendimento específico entre nossos nós, e eu me moldo num conforto novo.

De siamesa eu estranho quando você não se pendura na minha boca, eu aprendo a andar com quatro pernas outra vez. Dois pares de pernas fortes de andar por si só. E de certa forma eu devia ter o pescoço nascendo do seu ombro: de lá a vista dos seus olhos é serena, nada interfere, daquela distância em que parece que eu e só eu poderia te entender, como se vai ver eu também fosse você. Eu adorando suas rugas e querendo um pouco delas no meu rosto, roubando elas de mentira cada vez que as desenho na forma de um carinho no seu rosto, com a pontinha dos dedos. Já sei as suas mãos de cor, e se elas me puxam, a gente se mescla, eu acho que não deveria jamais querer fugir do lugar que parece o natural, e sou essa criatura desentendida que vai se atrevendo em ficar. O compasso do peito vai se afinando, e que vertigem!

Vai ver não nos achem bonitos assim nessa ideia siamesa repentina, vai ver nos veem feito quimera. Mas eu acho bonito nossas imperfeições encaixadas como se já nem houvesse culpa por tudo que as fez, e já nem mais são imperfeições. Nesse encaixe absurdo eu sinto o formigamento de talvez acontecer de ser completa em ser descompleta, de ganhar dois novos braços para carregar em mim algo que nos meus estavam esquecidos. Me vejo enroscada em você, enroscada num será, e será que finalmente…? Ou novamente?

 Me interessa apenas ser: tudo em mim pulsa, o ar revirou para mim num um vento excitante, todas as vontades borbulham sob minha pele.

E ser está dentro de todos os serás enfrentados no meu peito desembestado.

Lápide crua

Cheguei. Aqui, neste ponto obscuro e dormente. Meus dedos inertes amarelam com o tempo, mas não sinto nada. O tempo passou como um vulto sem temperatura distinta, soprou de leve, morto, invisível. Eu soube de coisas demais. Muito sobre mim mesma, sobre a natureza das pessoas. Cheguei no fundo. Sem perguntas a fazer, com tudo respondido o sentido parece ter descido como um líquido que foi esfriando da cabeça aos meus pés e fugiu finalmente até a última gota por um ralo invisível. Chupei todo o gosto que restava no osso das costelas que pude agarrar com os dentes, fui até o final da minha alma e só encontrei silêncio onde havia sempre barulho. Não sinto falta de nada, já contei todos os amores perdidos. Eles já murcharam. Já chorei tudo pelos impossíveis. Eu não sinto mais nada, nem pena de mim – aquela pena que era desfiada pelas garras afiadas das minhas expectativas e esperanças. Estou completamente envelhecida, numa carcaça que ainda funciona, pura teimosia. Ainda há planos e pequenos quadradinhos antecipados por notas que fiz das coisas a fazer, esperando ser marcados por um xis, quase uma recompensa virtual e minúscula satisfação. Mas não sinto nada. Nem ao ponto em que pontuar isso tudo faria graça.

 Ainda assim, me faço risonha, é preciso praticar esse tipo de desperdício para justificar os dias. Procuro me entreter nesses pequenos jogos de entreter os outros, já sou objeto e já é o pouco que me satisfaz. E como morta, quase pratico um vampirismo cínico, como se eu fosse capaz de sugar algumas gramas da alma e da atenção dentro das fantasias alheias. Sempre indo embora de um jeito como se tanto faz. Alimentada. Eu mesma virando um prato de comida servido, eu mesma me deliciando apenas por ser um tempero oferecido temporariamente. Pequena e intensa dose. Assim como eles fazem, eu aprendi, eu cheguei aqui. Comer é essa válvula apenas. Dessa máquina morta, desvinculada de tudo, de pedantismos e buscas intelectuais fúteis. Não temo. Sou quase indiferente, me basta estar debruçada na forma de dois suspiros ofegantes e sussurros para pessoas hipócritas que se fazem pedestal para eu me montar. Eu soprando um vento sensivelmente morto, grunhido no ouvido deles como o tempo não me fez. E dizem que sou boa nisso. E depois, nada. Nem melancolia, sou apenas uma cara vazia. Sou carne, queria resgatar o tempo, a inocência e tudo infantil que me foi carregado, mas não há curiosidade criando ruídos que indiquem grandes engrenagens girando ao meu redor.

Primeiro episódio de uma temporada sem ingredientes (trechos)

O cigarro pendula nos lábios desacreditados de beijos, não há nada além de displicência e mera aceitação. Por ela, os homens não ficariam.

Por um lado não existe mais dor, é certo que o coração está morto, que todas as palavras caprichosamente ditas a ela eram verdades efêmeras – eram palavras que sequer deveriam ter existido. Mas ela está livre. “Period – that´s how it starts”. Os olhos não são mais carregados, não há desespero. Uma nova sensação de que não houvesse sequer lágrimas preenche uma dignidade estranha, uma resiliência de sensação atemporal.

Ninguém vai aparecer e se desvendar no seu destino. Não haverá ligação recebida, surpresa de portão. Não haverá acaso, a esquina esperada não passa de uma ilusão. Não haverá caminho crível ou confiável. Ou de mais que alguns passos.

 Era um começo em que tudo chegava ao fim. Era 21 de Dezembro, 27 graus. Nada será extraordinário e sente essa onda morna de um grande nada adiante. De um massivo acordar, trabalhar e dormir que ela pretenderá enfeitar com algumas outras fantasias restantes.

Sua cabeça está acima das nuvens, os olhos inexpressivos com a clareza das coisas que são como são tornam tudo sutilmente sublime. Acabou o sonho, a poesia – não haveria ninguém que rimasse com ela anyway.  E principalmente anyhow.

(…)

Da mesma forma que eu fujo de medo e admiração cedendo espaço para a grandiosidade das coisas e pessoas únicas, eu não me despedi. Fiz silêncio para todos, sonhei a noite toda em desaceitação, só para mim. Minha falta com ela teve esse ar desde sempre, vai me dando culpa eu ter amado ela de um jeito tão platônico e tímido. Sem uma pergunta sequer, um olá decente. De certa forma me desculpo, do canto.

Mas aprendi que a simples intenção de ver muda o que se é visto. Lição que ela me fez desvendar. E para mim, não ver foi a única maneira de manter o universo como estava. O universo é um mentiroso, cheio de trapaças que eu, ignorando, faço com que não existam. Isso tudo para mim é um absurdo e não aconteceu.

E de longe ela é aquela áurea, o perfume único e o único que eu reparei em todos aqueles anos. Ainda vai existir na minha timidez a nervosa e gostosa proeminência de não conseguir evitar minha humilde passagem por ela, tão ídolo, no corredor. Queria ser como ela, e óbvio – não era. Eu, menina, via ela, mulher, assombrosa, genial. Tem coisas que jamais podem ser resgatadas e roubadas. E dentre essas coisas tinha nela uma presença sem idade. Eu mesma, nova, me sentia muitas vezes já cansada e desiludida – mas os olhos dela com aquele brilho, aquele foco em alguma coisa bonita que só ela tinha o dom de ver, que pairava diante da sua curiosidade inquietante tinham um entendimento cheio de um tom de descoberta infantil. Tudo era uma aventura. Ela via as cores que não tinham nome, só ela.

Eu sempre achei ela bonita, mas isso era natural.

A certeza é que todo mundo era apaixonado pela paixão dela, – me empresta essa sua elegância e vida?, eu sempre pensava – me empresta este filtro com que se vê um mundo cintilando em informações e belezas desatando de tudo que não é óbvio mas é presente no comum? Eram outros olhos. E eu adorava seus óculos, óculos que de certa forma foram de uma grande mãe. Uma coruja de asas largas, mas que não fazia sombra, fazia sol. Nunca houve falta de riso e amor.

 E é tudo uma mentira que se contou: pois ela é simplesmente a pessoa mais inesgotável, e está aqui guardada em um dos meus maiores e inesperados momentos de realização. Um momento em que ela, daquele jeito mágico, fez com que eu me sentisse possível, e como se eu não fosse uma mera intrusa naqueles corredores. Sem saber, ela tinha me acolhido como ninguém. Não existe gratidão para competir com o tamanho de sua presença, pois não se define nem quantifica aquele éter de inspiração que transbordava dela e se transmitia nos meus sonhos de estudante. Impossível ser como ela, a qualquer um escaparia convergir de ser  assim. Para mim ela não foi, mas sim ficou ainda mais. E eu fui embora de lá desses corredores carregando ela comigo. Para mim ela vai estar, ainda – ainda sem saber: vai estar nos exemplos que mais guardo com carinho. Eu vou querer ser um pouquinho ela, sempre. E ela vai estar na minha busca diária de colocar ela de pé junto comigo, na prática de ser alguém simplesmente melhor, alguém amigo, alguém essencial, alguém apaixonado por passar pelo mundo enxergando e buscando cores que não têm nome, e enfeitar ele um pouco mais com elas, pra gente ver.

Pontual

Olho do alto da cidade.  As gruas giram como ponteiros gigantes, fazendo sombra e tentando sincronizar o tique taque de algo de inquietude que trespassa muito além de sua simplicidade. Somos primatas construtores. Somos primatas sobrevivendo no caos orquestrado por nossa grata inteligência limitada. Uma inteligência que fica no impasse entre nossos desejos mais animalescos e reprodutivos e nossa alteza de apenas pensamentos de grandiosidade filosófica que nos tornariam inertes, sexualmente. Ou seja: somos carne com sentimentos que vagueiam perdidos num ritmo diário em que é impossível casar desejo com desejo. Vai e vem de desencontros e mesmices, generalidades em forma de gente que precisa por algum motivo otimizar a forma de passar cromossomos xx e xy adiante. Mesmo que apenas em ensaio.

Não iremos nos ver jamais. E a rapidez em que nos consumimos a nós mesmos deixa tudo turvo pelo movimento veloz de olhos desesperados. Mas é um desespero tão moderno: ele apenas se disfarça de vaidade e da leveza da indiferença. E com este disfarce, vamos todos a festas em que o ingresso é a facilidade de oportunidades vazias. Viramos um ponteiro pronto para passar para o próximo marcador de horas, nada importa senão o próximo ato que cria a ilusão de passagem de tempo, de se estar significativamente vivos e inabalados pelo badalar óbvio de nossa insignificância. Pois somos muitos… Nossas casas noturnas são meros açougues, em que os mesmos cortes refeitos a partir de um rebanho de bichos indiferentes são estimados por uma pequena dose a mais ou a menos de gordura.

Sim, somos primatas famintos e gordurosos, de certa forma, canibais. Sem saber e mantendo uma pose social desvirtuada – ou virtual. Não me sinto culpada, e tão pouco poderia julgar com pudor e autoridade uma natureza que, apenas disfarçada de romantismo e espera, também é minha. Essa estupidez inteligente que nos garantiu um lugar aquecido perto do fogo e a mobilidade antes não imaginada da roda e pouco a pouco nos fez sentir independentes e não reféns do tempo ou da intuição genética de prosperar. Se fôssemos realmente inteligentes morreríamos. A inteligência incompleta permite a existência, ainda, de vontades – das que eu tenho num compasso insistente marcado nos músculos que pulsam no meu peito e me mantém aqui. Aqui e perdida, do alto da cidade. As vontades desencontradas fazem girar os ponteiros e as gruas.

Nos resta esperar a sombra das gruas que criamos nos cobrir, esperar alguma coincidência próspera que nos iluda – e a isso damos o nome de felicidade. E sofrer enquanto isso, ou quando acaba qualquer tipo de anestesia em forma de músicas, filmes e livros que nos rodeiam. Nossas tão amadas anestesias de estar sempre sós numa debandada louca.

Calejo e a salvação dos iguais

Eu sempre me deliciei em assistir cada grito que essas almas infelizes poderiam emitir. Parece música, cada ferro quente beijando suas peles corruptas e desleais. Fazendo assoviar de dentro deles os uivos dos arrependimentos. O âmago sendo destruído é o tocar do instrumento mais afinado que meus ouvidos nascidos do sadismo poderiam apreciar. E se não há dor suficiente, devoro algumas mãos e pés e vou convencendo um por um que a hora de se arrepender é esta. E sempre. Não existe mais o tempo para eles, ou nome. Algum eco ressurge em algo que era resquício de mente, por vezes, perguntando repetidamente há quanto tempo estariam ali. Depois tudo cessa, numa angústia. Disso tudo eu sei, tudo aqui eu vejo. Por dentro e fora, essa é minha função. Repete-se a pergunta a respeito do tempo, numa consciência espectral, sem sequer um esboço de resposta. A dor não permite que qualquer pensamento se forme.

Eu não quero que eles realmente entendam sua culpa, o que me vale é provocar pura e simples dor. De cegar: não há mais tempo ou chance para argumentos pois, de todo modo, já estão aqui em minhas mãos. Então eles vão perdendo todos os sentidos, exceto os ligados à uma sensação embrionária de arrependimento e dor lancinante. Eu apenas quero vê-los contorcidos e desesperados feito pequenos fiapos de carne pulando uns contra os outros na gordura quente.

E já eram séculos – eu poderia saber, nunca houve nada que pontuasse o tempo entre dias que eles compreendessem, e a danação prosseguia em seu fluxo contínuo de lava escorrida da boca de cavernas ainda mais profundas que este meu beco. Não lembram mais o motivo de estar aqui, embora no começo houvesse uma vaga sensação de saber. Pedem perdão sem saber pra onde olhar, a vergonha da carne nua e trêmula fazendo reverberar uma humilhação de ser um pedaço falho de carne e as correntes repuxam ainda mais. Elas circundam pulsos e tornozelos, e são presas em buracos feitos na pele, feito ilhoses macabros. Isso sempre me fez  sorrir. Mas houve coisa que meu conhecimento de todas as eras não soube explicar. Alguma falha no meu sistema. E alguma coisa que me mantinha entretido cessou.

Açoitada, ela tinha todo o corpo recortado em pedaços finos de cicatrizes e cortes novos, emaranhados num xadrez que na verdade tornava todos aqueles que estavam com ela irreconhecíveis: e ela ia se desfazendo de sua noção de ser alguém. Também já pouco se distinguiam, deformados por bolhas e crostas por toda a pele queimada e ralada. E era viver apenas a dor constante, numa pinça de punição que se apertava infinitamente, mais e mais. Havia apenas transe. Uma indiferença ao cenário, e ela já não mais se retorcia de pavor quando as criaturas negras e compridas, de olhos de fogo e garras de ferro a colocavam sentada na mesa giratória de grampos. Não se retorcia tanto quando aparafusavam e apertavam seu crânio.

Foi na sessão da caldeira que tudo aconteceu. Deixei-a cozinhando junto com mais alguns outros e ele, por duas décadas e meia. E tudo aconteceu bem nos últimos minutos. Ela tinha sido colocada meio de lado, pois o procedimento é pregarmos as mãos e os pés pelas unhas, nas bordas e no fundo da caldeira – e ela, que não se arrependia muito de seus pecados, tinha uma mão apenas.

Ele havia sido pregado normalmente, virado para dentro, pelas pregas da pele que restaram no final dos membros. Não se arrependera de nada, e eu já havia tomado suas mãos, pés, baço, e um rim. Teimosias: eu imaginava se ele iria se deixar viver na tolice de me desafiar até sobrar apenas suas partes mais miseráveis: boca e coração. Eram como eram: pecadores passionais, e cozinhavam, ela pela quadragésima sétima vez e ele pela septuagésima terceira. Haviam amado seus próprios defeitos e abraçavam tudo de degenerado que havia em si. E eu os desprezava, apesar de soarem como os melhores gritos de desespero, especialmente no começo. Assistia sua dignidade restante escoar, derretida: a pele ia amolecendo e soltando das carnes, subia um vapor de gordura. E seus olhos embranquecidos orbitavam aleatoriamente, sem se situarem. Vagos e ausentes.

Almas velhas no meu pequeno buraco do inferno. Tudo seguia normal.

Cada um mergulhado em sua perdição interna, catatônicos e borbulhantes. Apesar deles se esfregarem e caírem tropeçando uns nos outros constantemente, já não há mais capacidade de notar que não estão sozinhos. A dor é muito mais facilmente percebida que o toque entre suas carcaças. Cada um em si – eles chamariam isso de boiada. Juntos e dissociados, uma massa de pecados amontoados.

Os olhos deles dançavam totalmente exauridos de lucidez, na órbita de um cansaço visível ao final daquela punição. Lacrimejavam um sal esbranquiçado, e somente não piscavam pois já havíamos arrancado suas pálpebras no começo: eles foram forçados a se enxergar despidos. E os olhos abertos ali eram praxe.

Os olhos dele e dela dançavam descoordenados… Descoordenados… Duas décadas e meia. Levemente mais perdidos que na sessão de punição anterior. Como se houvesse sutileza no antes.

- E então se cruzaram: isso nunca aconteceu.

No começo eu acreditei em coincidência, e era como se fosse apenas mais um tropeço desses corpos aleatórios. Mas a dança dos olhos foi interrompida, e de uma forma meio oca, eles se fitaram. E a opacidade se esvaiu dos olhos numa última lágrima salgada. Algo dos vícios da alma dele refletiu nos olhos dela, e o contrário também. Eu já estava paralisado. Eles haviam se reconhecido. E a boca dela se abriu para quase se rasgar pois havia visto alguém em sua frente pela primeira vez após alguns séculos naquela solidão ardente de sofrimento debatido e perdido – e era impressionante. Os dentes negros, uma fome irrealizável, os lábios ressecados. Finalmente.

Ela amou o que viu. E ele balançava a cabeça, desacreditado. Voltou a cabeça para baixo, pois houve um medo de ser apenas uma alucinação. Era uma sede por tanto tempo sem se haver da própria sanidade, e agora ela estava ali. Na forma de uma mulher defeituosa, com os seios dilacerados, e um buraco entre eles mostrava um coração. As bolhas na borda do buraco pareciam apenas adornos. Ele também era os mesmos defeitos e feiuras. E ali cozinhavam no fogo da rejeição do céu. Olhou de baixo para cima. E num ato proibido neste mundo, o pecador sorriu.

E ela… se soltou. Num único e violento impulso que não lhe causou a menor reação de dor. Não havia mais como se importar com metade das unhas arrancadas nesse ato. A fornalha inferior e a segunda fornalha inferior estavam em fogo alto. E neste momento eles já não sentiam dor alguma, e a danação era toda minha. Alguma coisa havia que eles pareciam decididos a não precisar mais da autorização do perdão e da punição da culpa. Ela nadou abrindo espaço entre os outros corpos flutuantes na caldeira, sem os notar. Nenhum outro existia.

Estavam de frente, um para o outro feito um espelho: vidrados. Ela suspirou fundo, num alívio que eu jamais ouvira. Recostou no corpo dele, testa com testa. Eu, acordando de um estado de grande surpresa, começo minha descida para os fornos, decidido a devorar mais algumas partes deles. Seria necessário os colocar em sangria, pendurados pelas pernas por algo como um século. O destino para eles era o que eu decidisse. Eu decidi que a eternidade seria desesperadora.

A pele solta ia desistindo do corpo, e faltavam alguns poucos minutos para mudá-los de castigo.

Eles estavam aqui comigo por terem sido essencialmente tóxicos. Nem mesmo eu consegui chegar a tempo de evitar o que se seguiu, e isso explica meus punhos amarrados em espinhos, a perfuração entre meus olhos e a amputação das minhas pernas dos joelhos para baixo. Ficarei assim algumas eras, até que regenerem meu posto. Acho  pouco, mas não gostaria que tivesse sido assim – até protestei. Ocorreu que o metal no sangue podre dos dois ferveu e eles se moldaram num abraço ainda desconexo e foram se derramando um no outro, fundindo feito mercúrio.

E fundidos e encontrados um no outro, eles desapareceram.

Testa com testa.

Isso nunca aconteceu antes.

Móbile dos dias

Ficar sem entender passou lentamente a ser um costume. Minha verdade ainda não havia detectado um movimento convulsivo seguido do silêncio brando de quando se captura a certeza de estar no lugar certo, depois de ser uma pessoa sempre tão deslocada.   Sou espalhada e esfumaçada, solta, esperando uma felicidade compactante, pois na dispersão eu vivo sem me sentir inteira, me faltam pedaços não encontrados ou talvez perdidos. Ou apenas fora de encaixe pelo simples distanciamento. E há vezes em que tento juntar todos os cacos dessa matéria com as mãos, em troca apenas de um cansaço vão. Tudo se esvaindo com facilidade. Espero então em minha nuvem de pequenos prazeres, que se enroscam como caroços estelares e pairam ao meu redor, na cidade, contrariando minha melancolia. Tomam forma de móbile suspenso que meu braço não alcança, e vou saboreando a poeira destes pequenos astros sacodidos pelo embalo do meu respirar, em finos grãos, que caem na pontinha da minha língua. Gosto bom, divagante. Levemente, milimetricamente inatingível – um quase que só! Minha felicidade ainda não chegou, apocalíptica e devastadora.

Mas enquanto isso eu tenho este meu céu. E tenho algum desconhecido me levando em seu carro pela noite, e os postes de luz vão passando com seu periódico silêncio alaranjado, lambendo o cenário com sobreposições em recortes retangulares de claro e escuro. Parece até que eles entendem o meu próprio silêncio e tédio, tentam enfeitar o cenário do jeito que eu vou gostar – e gosto: um riso vem e é apenas por este motivo. Parece até que eles sabem qual violão dedilha no rádio, pois cada retângulo corre na duração de uma nota. Um carretel desenrolando cores em mim. Estou desanimada. Estou sendo levada, engolida por meu desinteresse, mas as coisas conversam comigo, tentam me encantar. E elas me ganham em seu balanço de sonho inócuo, sonho de móbile. Mobiliando os dias, a cidade vai ficando bonita – só pra mim.

Ela tenta prometer a chegada da minha felicidade, que não veio. Eu levo minhas músicas pra um passeio.

Enquanto isso existe um vento, esse que eu sei escutar, que é meu amante e é dos que sempre voltam. Vem desobedecer a minha caminhada e, ele contra ela, é pra eu quase levantar voo. E sempre me senti cata-vento. Meu braço se abre pra ele, tento me emaranhar no momento, e tocá-lo todo. Imagino se conseguir isso me aniquilaria, de fato. As pontas dos dedos entreabertos vão riscando linhas coloridas no vento, e vou enfeitando meu amante com longas fitinhas que só eu posso ver. Chego a fechar os olhos. E o dia vai me conquistando como mais ninguém. Contra toda lógica de alguém de felicidade que ainda não chegou, eu danço na rua. Quem escolheu a música foi o próprio vento, e já estamos apaixonados – em cada passo meu toca na calçada uma batida, uma gaita da música. Eu fico sorridente, e os estranhos na rua vão se dissolvendo.

A arquitetura da cidade fez um ângulo com o pôr-do-sol que pintasse um entardecer gostoso no meu vestido.  Um ipê me namora e as janelas acenam, preguiçosas. O céu brinca de camuflar os prédios de vidro, e o rio de carros para e continua, pra eu poder nadar cruzando ruas, na minha falta de direção. Eu sopro uma fumaça brincalhona de menta no ar e aceito tomar um café com leite na companhia de mais três cadeiras numa esquina florida. Outra vez aceito uma cerveja, ou um banco de praça me acompanha quando eu levo um livro para contar histórias em seu jardim. As torres das igrejas se esticam pra me ver passar e com seu repicar de sinos tentam avisar minha felicidade que estou ali por perto. Elas gostariam de me ver rezando mais, mas eu ainda me jogo no acaso das esquinas, me perdendo delas. A madrugada me perfuma, jogando um confete de folhas mesmo se eu estiver sem graça de triste. Ela quer me ver como um carnaval inquieto.

A poeira quente arde na ponta da língua, me acendendo aos poucos. Por um momento eu estou rindo verdadeiramente. Rindo na rua, rindo para a cidade. Eu ainda espero, e até mesmo procuro: minha felicidade ainda não chegou. E não sei explicar o que não entendo.

- Mas, enquanto isso, estou viva.

As Voltas

Adélia era a moça errada da família direita. Nunca tinha muita desenvoltura em eventos da sociedade e, se tinha, era por esforço até demais – preguiça de viver dias entrelaçada nas amarras insistentes da mãe, tão conservadora dos bons modos e tradições. A família vizinha nunca havia despertado a menor empatia na moça, e por mais que houvesse as mais desagradáveis tentativas, nunca houve um vínculo estabelecido com o rapaz, filho dos Andradas, apenas dois anos mais velho. Quase um advogado. Sua antipatia por João crescia a cada ano, tornando-se inclusive uma diversão secreta. Com sua luneta dobrável focalizava e observava os atos pedantes e melodramáticos de João. Bem da janela de seu quarto, que pegava a face da casa habitada pelo tal, e zombava.

A começar pelo cabelo caprichosamente trabalhado, coisa que nas beiradas de quase 1950 lhe parecia tão pouco espontâneo, João já encarnava para Adélia toda uma ideia forçosa de que todos os moradores da orla da Pampulha eram pessoas de família recomendada. Digníssimos, ora claro, e vários amigos próximos de Juscelino. E que deveriam ostentar uma sociedade ornamentada de toda a moral que houvesse, mas, sem perder o bonde da modernidade. Isso lhe parecia confuso e detestável. Sentia saudade de seis anos atrás, quando ainda viviam em Jaboticatubas, na fazenda. E ela podia ser livre. Livre disso tudo.

Todos os finais de semana via João sair de gravata borboleta branca para o cassino ou para a Casa de Baile. Nunca sem se vestir com uma cara fechada e pomposa como uma abotoadura. Só se permitiria sorrir – discretamente – perante a citação mais bem elaborada e de efeito sarcástico, durante os encontros da sociedade. Ela pôde observar isso muito bem quando foi arrastada ao cassino, bem a contragosto, na ocasião que a mãe enfeitou seus cabelos negros com um broche que tanto se desequilibrava nos fios lisos que terminou por cair na taça de espumante, provocando um pouco convidado olhar de desaprovação de João. Ele olhava de lá de três mesas em diante com os conhecidos, bando de almofadinhas, debochando dela com um silêncio gélido – tinha certeza que ele também a desconsiderava imensamente. A mãe, não menos desconcertada, ainda a chamou atenção pela constante de Adélia em pegar os doces com as mãos, hábito condenável.

Mas é que pra moça era bonito ver os cristaizinhos finos de açúcar pontilhados em seus dedos, como se estivesse borrifada com pequenos diamantes doces. E isso dava todo um gosto a mais. Um gosto que aquela gente tão ponderada jamais entenderia por de trás de seus lenços e guardanapos de cetim bordado.

***

Era tarde de fim de Julho, e Adélia tocava piano despreocupadamente quando bateram à porta de casa e Dona Ambrósia apressou momentos depois para a sala de música com um envelope pardo em mãos. O Tico-Tico no Fubá cessou num sustenido, e a moça olhou desconfiada para seu próprio nome numa letra excessivamente floreada em azul brilhante. Convidava para que se juntasse à casa dos Andradas para uma pequena comemoração dos 23 anos de João, em dois dias. “Pequena”. Somente para os jovens. Imaginou que dessa vez sim, se sairia mal, tanta gente desagradável junta. Armou uma desculpa para se ausentar, mas não havia discussão: depois de anos sem comparecer ao evento anual, a mãe exigia que a filha começasse a tomar sua posição social por conta própria – ou imagine, ficaria solteirona. E já não era tão jovem assim. Iria sim, senhorita!

Dessa vez dispensou o broche, apenas usou os cabelos soltos e arrumados em ondas cobrindo os ombros nus, um vestido amarelinho, colar e brincos de pérola. Não quis se complicar muito e, no mais, não pensava em se demorar na festa mesmo. Seria um bom vestido pra quem sabe pular a janela e voltar pra casa pelos fundos do jardim. O muro mesmo não era alto.

Chegado o dia, a vontade de adiar a visão do aniversariante foi contrariada desde cedo. Adélia voltava da lagoa depois da natação e, atravessando o pátio que dava para o fundo da casa, onde ia se secar ao sol, viu João. Patético. Como sempre. Havia uns dois meses que dentre suas manias ele havia incluído um treino em que ficava cerca de hora dando socos e chutes num saco de pancadas, fazia flexões e uns outros exercícios cujo nome não vinham à imaginação da moça. Apenas não via propósito naquilo e, como sempre, o julgava uma pessoa desnecessária em tudo. Nunca viu o rapaz tão agitado, seus movimentos eram vigorosos. Rápido como um raio, ele parecia desviar de mil facas imaginárias que cortavam o ar. Ela passou fingindo distração, sem ceder um mínimo olhar. Um mínimo olá.

E pela noite, quando se cansou de pairar de roda em roda de conversa, repousou na biblioteca dos Andradas, no banquinho do piano. Para respirar fundo e criar coragem de fugir sorrateira da festa. Sim, todos estavam animados em comemoração, até mesmo o antiquado João. Talvez tivesse bebido mais que se permitia. E assim não pareciam tão terríveis, mas é que aquele apenas não parecia o lugar certo a se estar.

Ninguém vinha pelo corredor e numa timidez breve, arriscou uma nota, duas. Começou a ensaiar baixinho alguma música e, ganhando segurança que não apareceria ninguém – pois até o momento, nada! – foi se soltando. Clair de Lune.

- Suas mãos não são apenas lindas, Adélia. Mas imagino que já saiba disso. Daqui de casa sempre dá pra ouvir o talento delas.

João repentinamente se destacou de um vão entre duas estantes. Também se destacou um arrepiado da nuca de Adélia. O rapaz ia se aproximando, passando tropegamente o charuto para a mesma mão do copo de uísque. Seu olhar estava mudado, obscuro, penetrante. Pela primeira vez, sincero. Úmido e injetado. A moça apenas se curvou para o lado, sem reação. Apalpou levemente o ombro desnudo de Adélia, que recuou um milímetro para o lado. Um milímetro de repulsa, foi como pôde reagir. Como, então? Ele continuou:

-A moça mais bonita da orla não devia estar se escondendo em minha biblioteca, não acha?

-Eu não… Já ia… – Adélia se debruçou sobre o teclado como se tivesse escondendo com o corpo algo errado que havia feito ou roubado, e os seios cantaram algumas notas desordenadas no teclado. Escondia o próprio corpo, pois naquele momento se sentia nua, completamente. Queria sumir. Ele se aproximou mais, deslizando as pontas dos dedos na madeira escura do piano. Os pés faziam um barulho macio e surdo contra o carpete na madeira. Ele estava estranhamente confortável de si, com a postura relaxada, como se o momento fosse algo natural. Como se fosse um momento embrulhado em veludo. Ela estava cercada.

-Fiquei entusiasmado quando te vi chegando, não acreditava. Depois de tantos anos, finalmente, e aqui estamos. –tomou o cabelo dela que pendia sobre o rosto e ajeitou a mecha atrás de sua orelha vagarosamente- Conversando intimamente e, se me permite a ousadia, apenas hoje, eu aqui e a senhorita assentada sob meus olhos, eu pude realmente observar que bonitas saboneteiras e colo! Só vejo de longe quando nadas. Você parece uma escultura de marfim.

Estarrecida, a garota apenas entreabriu os lábios que, tão acostumados a cantar e soletrar deboches de João, não tinham resposta. Sentiu-se completamente desfeita, não tinha nada certo. Um elogio tão bonito e esperado vindo daquela pessoa tão errada. Queria poder devolver aquilo, não queria carregar pra si as palavras inesperadamente espetadas em seus ouvidos, tudo tão desconfortável… Ele estava tão próximo! Apertou a mão nas bordas do assento, os nós dos dedos mais pálidos que sua face. Era bonito, mas ela não gostava muito de homens louros. E afinal de contas, era o João Almofadinha Pompa & Excelência Andradas. Onde estava todo o seu jeito moderado agora?

Era o João, que no momento de total imobilidade de uma Adélia descrente, roçou um lábio inferior quente e úmido no desenho do ressecado lábio superior dela. Esperava que o beijo se desabrochasse num término do descaso dela por ele. Mas nada houve, além do tremor de Adélia. Ela apenas se levantou de súbito e correu, se jogando pelo vazio da janela aberta, em direção à própria casa. Tal qual havia fantasiado fugir. Antes de entrar, apoiou as costas no muro dos fundos, quente e concreto como uma realidade a se aceitar. Uma realidade que a deixava rubra e sem ar. Desconhecia razões pra esses dois sintomas. Devia ser a corrida até a casa, pensou. E queria matar João Almofadinha Pompa & Excelência Andradas. Subir nele e apertar aquele pescoço de pavão metido. Apertar bem, apertar ele todo, até que… Que atrevimento!

***

Não se falaram mais, e passaram os dias finais de julho pra agosto desviando olhares. Adélia se tornara irritadiça, queria evitar toda saída de casa que não fosse extremamente necessária. Ainda não tinha entendido como teria se permitido uma proximidade tão extrema da pessoa de quem mais queria distância. Observava os estranhos treinos de João com sua luneta e sentia um algo estranho subir pela espinha ao ver aquela pessoa desagradável com uma camada de suor pra dar acabamento à sua natureza evitável. Aí percebia que estava descansando os cotovelos no parapeito com cara de distraída e a cortina aberta demais. Num clique ela se endireitava e fechava a cortina, dizendo que ainda bem que não tinha sido notada por João. Voltava a conferir se não havia sido pega abrindo imediatamente depois uma fenda infinitesimal entre cada pedaço da cortina. “Se pelo menos não fosse tão antipático”, e policiava o sorriso que vinha quando pensava assim.

Passou despercebido pra ela o fato de que João aparentava menos prepotente e até abatido, mesmo. Pois ele sempre imaginara o momento perfeito e distante em que se declararia para Adélia, em que o mundo seria outro, mas agora com tudo vindo abaixo ele também havia se desmontado de toda sua postura. Seria o mundo de sentir o cheiro dos cabelos dela misturado no seu abraço e depois, quando cada um fosse pra casa, de sentir o cheiro na própria roupa. E remar na lagoa, com ela bem no centro da paisagem, contar pra ela por horas as impressões que teve ao ler os livros que lia. Tudo mais, dar-lhe flores – por ela ele havia se tornado um grande romântico.  Adélia era diferente das outras, sempre soube, era uma explosão, e ele desejava ser atingido por cada estilhaço. Quando a via, tudo parava, e não havia reação… Ninguém era tão desconcertante. E quando pôde reagir, isso! Sabia que tinha passado dos limites, mas ao mesmo tempo tinha achado o momento tão sensual que foi levado, não poderia resistir: só os dois na biblioteca e ela com as nuas saboneteiras em que ele queria recostar para sempre…  Restava para ele apenas arrependimento, nunca conseguiria se explicar para ela, sua paixão por Adélia estava definitivamente condenada ao fracasso. Voltou-se para suas atividades particulares, tentando esquecer o vexame. Apenas não conseguia esquecer o toque da boca dela na dele…

Certa vez a casa esteve vazia e Adélia se pegou batendo o telefone no gancho após a mãe de João atender. Tinha ligado imaginando que teria coragem de exigir algum tipo de explicação, ver o que aquele miserável tinha a dizer sobre o abuso decorrido.  Obviamente não tinha nada além de medo e vergonha. E torcia um dedo no outro, desejando que ele mesmo viesse se explicar, com aquela cara de tolo, a cada vez que o via passar pela calçada da frente de sua casa. Mas ele nunca vinha dizer nada. O peito ardia ansioso a cada chamada na porta ou ao telefone.

***

-Minha filha, venha ouvir também, com sua mãe! E ele esteve se preparando! Treinos diários, ah, tem chances sim, é certeza. Grande novidade, grandíssima… Uma surpresa para todos, sim senhor!

O pai de Adélia chamava da copa. Desinteressada, sabia que o pai certamente estaria lendo as notícias da coluna social mineira, era assim aos domingos pela manhã. Gritou que deixasse para lá. Arrumava-se de um jeito arrastado para o dia tão falado e esperado por todos. Todo mineiro e mais, todo morador da orla da Pampulha era estremecido pelo burburinho de antecipação que o Primeiro Grande Prêmio da Cidade de Belo Horizonte causava. “Muito obrigada, Automóvel Clube do Brasil, por mais um evento insuportável da sociedade”, remoía Adélia em pensamento.

A orla estava numa agitação desde o dia anterior, estava sendo arrumada uma arquibancada para os moradores mais importantes da Pampulha enquanto uma corda dividia o espaço dos outros espectadores. Bandeirolas coloriam a pista, ao redor da lagoa, trançando um ziguezague entre seus limites. Havia espaço para pipocas e algodão doce, e o cheiro de uma delícia competia com o da outra, criando a atmosfera festiva. Alguém do bairro tinha combinado levar para os moradores da comunidade local uma barraquinha com refrescos e outros drinks.  Talvez um tira-gosto, algo assim. Era uma tarde azul e fria e os fotógrafos lambe-lambe afirmavam para a rua toda como era importante registrar aquele momento único. A tarde ia caindo suavemente, a agitação só aumentava.

Atrasada, Adélia foi para frente de casa sozinha. Não se preocupou muito em procurar os pais ou outros conhecidos. Uma multidão de cores e sons. Animou-se: poderia se misturar um pouco com a gente. Com a gente que não era da orla. E comer pipoca. Ao que se entendia pelas vozes agitadas que passavam, não eram só paulistas e cariocas, e que orgulho ter até mesmo três ou quatro mineiros! Não era certo quantos.

Algumas jovens agitavam lenços e faziam charme na passagem dos carros. Rapazes comentavam animados sobre a parte técnica do esporte, coisas que jamais preocupariam Adélia. Posicionamento de largada, aerodinâmica, condições da pista e do clima – essas coisas.

***

Um estrondo metálico arranhou o ar. Era a sexta volta ainda, todo mundo correu para ver o carro número 15 contorcido, soltando fumaça como uma fornalha acesa. O calor se expandia ao redor do acidente, junto com a massa de curiosos impressionados. Uma confusão de socorristas despreparados e bombeiros tentavam desembaraçar a vítima da confusa ferragem do carro de corrida. Retiraram o capacete para que o piloto respirasse melhor. Adélia disparou com a multidão, desaguando na baía de pessoas, e pôde ver.

Pôde ver que conhecia aqueles cabelos louros. Mas os conhecia penteados antiquadamente com brilhantina e não bagunçados tragicamente num banho de sangue.

- Morto!- o grito ia propagando de boca em boca. Os socorristas iam se encolhendo, alguns senhores de chapéu abaixavam estes da cabeça, entristecidos com tudo. Com o fim daquela festa.

Adélia apavorada, lembrava do fim de outra festa. João treinava seu reflexo todos os dias, então era isso. Para isso? Onde esteve o treino tão requisitado nessa hora? Treino inútil, será que ele não servia nem pra treinar direito? O que explicaria o fim daquela festa?

As bandeirolas, as cores e chapéus baixados.

Baixou também o corpo da moça, que se entregou ao meio-fio. Chorava agora uma cascata de sentimentos guardados, descontente. Rebentava uma represa contida todos os anos em seu peito de menina travessa, e o deboche não tinha mais graça. Culpa confessa por tanto se falar da criatura ali emaranhada num sem vida de aço, e agora esse arrependimento de tudo que se adiou, por capricho dela. Num instante em que ela mesma confessava pra si um amor. Existiu um amor. Que coisa impossível!

Chorou copiosamente a piada mais sem graça com que já deparou. A partida de seu tão querido idiota. Chorou publicamente, no meio de toda aquela sociedade abestalhada, que nem mais existia agora.

Ah, João, tão estúpido, João! Tão metido, foi meter-se nessa morte estúpida, nessa competição ridícula, desnecessária como você – era…

 

 

 

 

 

Walk in a leisurely manner – Or “Black magic”

Estavam todos quentes, pendia sobre eles uma lâmpada incandescente. Ninguém falava, apenas o suor no buço florescia salgado, o olhar perdido numa languidez em que nada merece ser explicado – e sem mais. Uma letargia iluminada, sombreando pensamentos, olhos brotados, lacrimejantes de sequer piscar, como se o mundo fosse um bar numa beira de estrada onde o mundo cruza com um esquecimento eterno e fantasmagórico. Cubículo flutuante. Nesses momentos que parecem uma fotografia de muitas vidas vividas e assombradas num cotidiano que se repete a cada cinco minutos. Um tempo parado em voltas de cliques falhos, quase silenciosos em que a fita do tempo revolve. Eles não vão envelhecer nunca. Alguns sorrisos afrouxavam sem se perceber, como se desligados em fade out manchado - não sei se numa melancolia ou nostalgia antecipada.

E ela num ressalto como que se lembrasse quem era e qual sua necessidade: garçom!

A gente custa a vida toda pra entender ela, e tudo parece sempre fora do lugar e repentino, desconexo. Ela está sempre errada e ao avesso, insatisfeita. Com um olhar de gotas de chocolate ela devora um brownie suculento. Ela quer ser isso tudo, quer derramar quente saindo pelos poros da maciez mordiscada, brilhante, lenta, sobre a mesa. Ela quer se derramar num sabor doce e amargo, ficar na lembrança do céu da boca da gente.  Pois ela pra ser, é necessário cebola, café, azeite, pimenta, álcool, sal e açúcar. Carne. Fumaça. Ou quem seria?- Não ela mesma. Tudo em excesso e numa alternância compulsiva, ardida, suave. Que pouco se explica. Mas nada acontece, e por enquando ela é apenas uma apatia cor de bege. Saboreia os gostos que ela mesma quer voltar a ter. Buscando alguma coisa, uma provocação que por toda parte olhava e não via. Em seguida é sugerido um passeio na loja de discos.

Havia um tempo. Que os dedos dos pés não se esticavam de prazer, as unhas pintadas de vermelho. Já havia um tempo em que o pecado não parecia seduzir o arrepiado de sua espinha.

Duke Ellington ela levou pra casa pois,  especialmente o “ Toodle-oo”  em  “East St. Louis Toodle-oo” , quando leu somente pra que ela ouvisse,  soou como a brincadeira profana tão esperada. Presenteou-se. Colocou o disco, e então a mão na agulha foi como ser tomada e conduzida pela mão do próprio pianista. Galanteador, um bruxo hipnótico, jogador maldoso. Malandros que aprendessem. Ele sentado em sua poltrona.

Estavam todos quentes.

Ela se sentou inocentemente em seu colo para ouvir o que ele tinha a dizer.  A cada suspiro baforejado de sensualidade da música, ela se derretia. Ele gemia, rouco, no ouvido dela. Sofrimento bom. Era música de se deixar cair pelos botões da blusa de Ellington, desfazendo dos seus fechos. De repente tudo era um crime delicioso, suas vontades tinham sido tomadas pelo homem, assaltante de riso atravessado em desejo e traquinagem. Bigode fino, mãos grandes. O sequestro mais esperado é o da provocação.

Apagou a luz incandescente, e se reencarnou, possuída por Duke Ellington.